Caráter: um estudo a partir da obra de Samuel Smiles
“O caráter é uma propriedade. É o mais nobre dos bens, e faz jus à aprovação e ao respeito de todos”. Samuel Smiles¹
Samuel Smiles foi um prolífico autor escocês de livros e artigos, mas também estudou medicina na Universidade de Edimburgo. Apesar das dificuldades impostas pela morte do pai, Smiles pôde continuar seus estudos graças ao trabalho de sua mãe que dirigia um pequeno negócio e tinha a crença de que o "Senhor proverá" (Gn 22:14). O exemplo dela de trabalhar incessantemente para sustentar a si mesma e aos nove irmãos mais novos dele influenciou fortemente a vida futura de Smiles.
Apesar disto, Smiles não prosseguiu na carreira de médico e, gradualmente, encontrou refúgio no trabalho intelectual. Em 1871, escreve Caráter, um livro que busca o aperfeiçoamento e fortalecimento da natureza humana em sua forma mais elevada, expressando no homem, o que ele tem de melhor. Para Smiles, o caráter garante o respeito, pois é produto do poder do coração e, quando consciente, admiração e influência perante a sociedade. Aqueles que no caráter investem encontrarão a recompensa na estima e reputação conquistada com justiça e honradez, pois sem princípios, o homem é um barco sem leme, à deriva e à mercê de qualquer vento.
Todos têm a obrigação de buscar o padrão mais elevado de caráter. No entanto, um caráter de fato superior necessita de esforço e se expressa na conduta, guiado e inspirado pela integridade, sabedoria e princípios. Em sua forma mais elevada, age sob influência da religião, da moralidade e da razão.
O caráter é formado e moldado pela educação, pelo exemplo, por experiências de vida, escolhas e desafios enfrentados. A família é a primeira e mais importante escola do caráter, pois é onde se aprende os valores morais, honra-se Deus e faz bom uso da liberdade2. No lar, a educação é aprendida pela simples imitação e, assim, de modo imperceptível, através “do exemplo” (Tt 2:7), o caráter é formado definitivamente. Não há nada maior que a educação, pois ao educar um jovem e inseri-lo na sociedade, dá-se uma contribuição para as gerações futuras. Por isto, a primeira prioridade quando jovem é formar um caráter forte3. Desenvolver o caráter exige disciplina, reflexão ética e exposição contínua a bons exemplos.
O trabalho é um dos melhores educadores do caráter prático, pois desperta e disciplina a obediência, consciência, atenção, empenho e perseverança. O desejo de conquistar algo sem o ônus do esforço é sinal de fraqueza, pois tudo que merece ser possuído só deve sê-lo pagando-se o seu preço. O conhecimento não pode ser inculcado sem esforço na mente, assim como o campo de trigo não pode produzir sem ter sido arado antes. O verdadeiro caráter necessita do esforço constante em agir com retidão, mesmo quando exige sacrifício. Trata-se de uma construção feita de decisões conscientes e de autoconhecimento. Desta forma, todo trabalho fundamentado é saudável e traz esperança.
A disciplina é ingrediente crítico e chave mestre para estar disposto a fazer o que for preciso e firmar compromissos de longo prazo4. A coragem manifestada no esforço e no empenho silencioso ousa tudo suportar e tudo sofrer pela verdade e pelo dever. A coragem é expressa na vida diária ao resistir a tentações, na coragem de falar a verdade, de ser o que realmente é, sem fingimentos e vivendo na honestidade. Assim, é importante não colocar a aprovação ou o ambiente simpático do meio a que se pertence acima da verdade, embora seja sempre uma grande tentação5. Desta forma, vencer esta tentação, “entrar pela porta estreita” (Lc 13:24) e seguir pelo caminho certo é sempre melhor, apesar de, muitas vezes, estar pouco acompanhado6. Por fim, deve-se cumprir o dever com toda a força e conquistar a aprovação da própria consciência.
O homem precisa resistir aos impulsos instintivos, o que só é alcançado mediante o autocontrole. Um instante de destempero pode garantir arrependimentos para toda a vida7. Deve-se aprender a praticar a abnegação, nas grandes e pequenas coisas, pois só se atinge o autocontrole nas grandes coisas por meio do autocontrole nas pequenas8. Assim, o homem de caráter aprende a suportar e se conter; quando não é correto, não faz; e quando não é verdade, não diz9. O autocontrole também é importante quanto às palavras e ações, pois “a palavra dura suscita a ira” (Pr 15:1) e, quando a tentação de pegar um atalho for grande, é justamente este o momento em que não se deve admitir realizar concessões morais10. Logo, a prática diária de pequenas renúncias fortalece o caráter.
O dever é uma obrigação e uma dívida que só pode ser cumprida com esforço voluntário e uma ação resoluta nas questões da vida. O dever inicia dentro de casa e prossegue fora, entre homens, mulheres, amigos, chefes, subordinados, governantes e governados. A noção permanente do dever é a verdadeira perfeição do caráter; é a lei que ampara o homem em suas mais elevadas atitudes. Sem ele, o indivíduo cai ante o primeiro sinal de adversidade ou de tentação. O dever se fundamenta em um senso de justiça inspirado pelo amor que é a forma mais perfeita da bondade (1 Jo 4:8). Não é um sentimento, mas um princípio que se manifesta na conduta e nas ações, determinadas principalmente pela consciência e pelo livre-arbítrio. Trata-se de adquirir o hábito de fazer o melhor11, repelir as inclinações para o mal, resistir diante dos prazeres12 e superar o egoísmo inato. O poder de exercer prontamente a vontade, em obediência aos ditames da consciência, e, assim, resistindo aos impulsos de natureza inferior, é de suma importância na disciplina moral. O dever consiste, desta forma, em ser honesto consigo mesmo. Desta maneira, o homem de bons princípios é verdadeiro com sua arte, talento e treinamento13 e evita parecer o que não é.
O sucesso na vida de um homem se dá muito mais pelo seu estado de espírito do que pelos seus talentos. A felicidade em sua vida vai depender principalmente da disposição equilibrada, paciência, tolerância, bondade e consideração pelos que o cercam. Existem naturezas constituídas de tanta felicidade que enxergam o lado bom em tudo. Quando têm fardos a carregar, suportam-nos com gosto e alegria14, sem recriminar, aborrecer ou desperdiçar suas energias com lamentações inúteis, mas seguindo em frente na luta, corajosamente, e colhendo aqui e ali as flores pelo caminho. A base verdadeira da alegria é o amor, a esperança e a paciência. O amor alimenta pensamentos esperançosos e generosos em relação aos outros, “é paciente, bondoso, não inveja, não se vangloria ou se orgulha” (1Co 13-4). O homem de caráter sólido considera o lado brilhante da vida e o rosto está sempre voltado para a felicidade. A bondade, assim, consiste em ser delicado e generoso de espírito. E, desta forma, o principal segredo da felicidade está em não se deixar atormentar por pequenas coisas, mas elevar o amor e a caridade como principais sentimentos do dia a dia. E depois de fazer tudo o que é possível, aceitar o que vier com paciência (Rm 12:12).
As boas maneiras são um dos principais encantos manifestos do caráter e, muitas vezes, embelezam as tarefas mais comuns pela forma como são desempenhadas. Uma postura ao mesmo tempo cordial e amável contribui para uma agradável primeira impressão. As maneiras de um homem expõem o seu caráter e é a manifestação de sua natureza interna. Logo, boas maneiras não são nada mais do que boa conduta. É por esta conduta que o respeito por si mesmo assim como pelos outros, é demonstrado. O princípio do respeito significa não pretender nada dos outros, ser desprovido de interesse com o intuito de impressionar ou de competir15. Consiste em ser justo, em “não julgar os outros” (Mt 7:1-2), pois nem os mais sábios conseguem ver o quadro todo16, em ter compromisso e chegar sempre na hora17, em ser “humilde de coração” (Mt 11:29) e em ser vigilante em todas as ações, “sem permitir que a soberba domine os pensamentos ou as palavras” (Tb 4:14). A verdadeira cortesia é bondosa e se mostra na disposição de contribuir para a felicidade dos outros. No entanto, sem qualidades sólidas e duradouras como a honestidade, sinceridade e veracidade, cultivar boas maneiras, comportamento educado e elegância no trato, de nada valem. Desta forma, a fonte da polidez deve estar mais no coração do que nos olhos, pois se não for para produzir uma vida bela com a prática do bem, de pouco será proveito.
Só se aprende sabedoria prática através da disciplina da experiência. Para que o caráter tenha algum valor, é necessário permanecer firme e decidido nos momentos de dificuldade, bem como suportar o cansaço e restrição às necessidades18, pois a cada um cabe uma parcela justa de trabalho e deveres a cumprir, e ninguém pode se abster dela, sem prejuízo para si mesmo e para a sociedade em que vive. Diante disso, cada indivíduo deve assumir sua responsabilidade e não culpar os outros19 pelos reveses e calamidades por que passa. Deve, de antemão, buscar o cotidiano do mundo para alcançar um conhecimento prático e aprender a ter sabedoria. É no mundo que se aprende a disciplina do trabalho e desenvolve a paciência, a dedicação e o esforço que forma e consolida o caráter. É ali que cada um se depara com a grande disciplina do sofrimento. O contato com os outros também é necessário para conhecer a si mesmo. Apenas no livre contato com o mundo social é que é possível uma justa avaliação do próprio mérito. Sem essa experiencia, chega-se a um conceito distorcido de si, podendo irromper para a arrogância e o orgulho. Aqueles que querem ser alguém ou fazer algo no mundo precisam ter o devido autoconhecimento e ter a mente e o coração abertos, sem se envergonhar de aprender com quem tem discernimento, pois “aquele que anda com os sábios, será sábio” (Pr 13:20) e com quem tem experiência, pois “a sabedoria acha-se nos velhos” (Jó 12:12). O homem cuja maturidade o tornou prudente esforça-se para julgar adequadamente aquilo que está ao alcance de sua observação. O bom senso é, na maioria dos casos, o resultado desta experiência aplicada com sabedoria. Ao final, a vida pode simplesmente ser vista como uma escola de experiências na qual as pessoas são as alunas. Como na escola, as lições aprendidas devem ser encaradas como verdadeiras, mesmo que não sejam compreendidas, sobretudo quando os professores são as provações, as tristezas, as tentações e as dificuldades. Todavia, deve-se não apenas aceitar essas lições, mas reconhecê-las como indicações divinas.
A formação do médico é um exemplo de escola do caráter. Não se trata apenas de aprender diagnósticos, protocolos e técnicas, mas de forjar os valores que sustentarão cada decisão diante da vida humana. Nesta caminhada formativa, muitas vezes, o caráter é mais importante que as competências técnicas20, e o próprio estudante logo percebe que o conhecimento, por si só, não basta. Os dilemas éticos, a convivência com a desolação e a dor, a necessidade de escolher entre alternativas imperfeitas, as incertezas e a falhas certamente serão desafios vividos durante a prática médica. É justamente neste momento que o caráter se torna uma bússola necessária para a realização do bem. O caráter ensina a manter a serenidade, a ser verdadeiro sem perder a compaixão, a não se deixar vencer pela vaidade, tampouco pela indiferença. É nele que sustenta a coragem de acompanhar o doente mesmo quando a cura não é possível, suportar o peso das derrotas sem desistir do compromisso com a vida, aceitar as limitações sem abandonar a busca pelo melhor e recomeçar sem ignorar que cada falha é um aprendizado. Como já descrito, o caráter é construído, inicialmente no seio familiar e, posteriormente, através de mestres e bons ambientes sociais, formado pela educação, trabalho, disciplina, autocontrole, dever, estado de espírito, boas maneiras e experiência. É, sobretudo, forjado pelo encontro constante do sofrimento com a esperança, sem deixar de confiar que tudo está nas mãos de Deus, como disse Santo Inacio de Loyola.
O questionamento, neste momento, é até que ponto tem se aproveitado a experiência adquirida na escola da vida? Quais vantagens foram tiradas de cada oportunidade de aprender? O que foi ganho através da disciplina do coração e do espírito, e quanto pelo aumento da sensatez, da coragem e do autocontrole? Ao atingir uma situação de propriedade, teve sucesso em preservar a integridade e usufruir a vida com moderação? ou a vida tem sido um banquete de egoísmo e falta de consideração pelos outros? O que foi aprendido com as provações e a adversidade? Aprendeu-se a paciência, a submissão e a confiança em Deus ou apenas a impaciência, a intolerância e o descontentamento?
Ao fim, o resultado de toda esta experiencia é uma questão de tempo e será percebido ao longo da vida. O homem que aprende a confiar no tempo como um aliado entende que este é um agente embelezador e consolador, mas também um mestre. Iniciar esta jornada cedo é respeitar o valor do tempo, pois a juventude é a primavera da vida e, se nessa época, não houver um grande entusiasmo, pouco será empreendido, e menos ainda realizado. Se o tempo da semeadura não for generoso, no verão não haverá flores e nem uma colheita produtiva. E quando vierem as dificuldades, felizes serão aqueles que passarem por provações com um espírito firme e o coração puro, enfrentando os apertos com serenidade e aprumo, por mais pesada que seja a carga que carreguem. Pode-se dizer que, muitas vezes, o aprendizado com as dificuldades é o maior estímulo e a melhor disciplina para o caráter. A luta é condição preponderante para a vitória, pois não há vergonha em perder, mas há desonra em desistir ou não lutar21. Se não houvesse dificuldades, o esforço não seria necessário; se não houvesse tentações, não haveria o treino do autocontrole e nem mérito na virtude; se não houvesse privações e sofrimentos, não seria preciso o aprendizado da paciência e da resignação. É um erro acreditar que grandes homens chegam ao lugar onde estão apenas acumulando sucessos; muitas vezes, são as dificuldades que os fazem serem bem-sucedidos, pois antes de tudo, o que se ensina não é como ganhar, mas como cair22. Os preceitos, estudos, conselhos e os exemplos nunca poderão ensinar tão bem quanto os reverses. Quando o homem de caráter vive tais experiencias, a sua disciplina mostra o que se deve e o que não se deve fazer.
A felicidade perfeita não deve ser buscada neste mundo. A doutrina que ensina que a felicidade reside no bem-estar e no conforto não é digna de consideração, pois os fracassos e os dissabores moldam o estado de espírito e fortalecem a personalidade. A dor pode ser um desígnio divino tanto quanto a alegria, mas exerce uma influência maior sobre a disciplina do caráter, pois castiga e suaviza a índole, ensina a paciência e a resignação, desenvolve a natureza humana e eleva-a para outro patamar. Admitindo-se que uma das finalidades da existência é a felicidade, é possível que o sofrimento seja condição indispensável para atingi-la. Em grande parte, a vida é aquilo que é feito dela, um espelho da individualidade em que cada qual constrói seu pequeno mundo. Através de um espírito alegre, o mundo se torna agradável; porém, o descontente torna-o deplorável. É o espírito que dá a todas as situações, grandes ou pequenas, suas reais características. Se a visão de mundo é elevada, se há paz interna e tranquilidade na alma23, se a maneira de viver e pensar é nobre, o mundo será alegre, cheio de esperanças e de bençãos. Se ao contrário, simplesmente olha-se o mundo como um meio de satisfazer os próprios anseios, prazeres e ambições, a vida será cheia de trabalho extenuante, ansiedade e frustações.
Há muitas coisas na vida que jamais serão possíveis de entender. Mesmo que não seja factível aprender o pleno significado da disciplina da provação pela qual até os melhores tem de passar, é fundamental ter fé no cumprimento dos desígnios de Deus, do qual cada pequena vida individual faz parte. Cada um deve cumprir seu dever na esfera da vida em que foi colocado, pois só o dever é verdadeiro; não há ação verdadeira, se não estiver vinculada a Ele, pois “o Senhor Deus é a verdade” (Jr 10:10). O dever é a finalidade e o objetivo da vida nobre, e o prazer mais verdadeiro é a consciência de tê-lo cumprido plenamente. Ao final de tudo, por mais curta que seja a estada de cada um neste mundo, é na esfera que cada um recebeu que se tem que cumprir o grande objetivo e a finalidade de desenvolver a potência da melhor forma possível. Portanto, a formação do caráter não é um luxo, mas uma necessidade fundamental e um dever para uma vida plena.
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